Colocar na agenda o que não é trabalho
“Na minha agenda: não trabalhar”
Na minha agenda desses dias, tive um compromisso inadiável: não trabalhar.
Separei meio turno para almoçar com uma amiga e, depois, assistir a palestras que não tinham relação direta com o meu trabalho. Nada disso poderia ser considerado “produtivo” — mas tudo foi profundamente nutritivo para a minha mente.
Quem é autônomo conhece bem o dilema: a sensação de que cada minuto precisa estar ocupado com entregas, projetos, respostas. Preencher a agenda até não caber mais. Como se a prova do nosso valor fosse a quantidade de horas trabalhadas (algumas empresas tão até medindo nosso valor em cliques).
Só que é justamente o contrário. O que nos sustenta no longo prazo não é a sobrecarga, mas a pausa. Não é só o foco, mas também a distração. Como lembra o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, autor da teoria do estado de "flow", muitas vezes as melhores ideias surgem quando não estamos trabalhando diretamente no problema.
Eu mesma costumo deixar alguns problemas ou necessidades do trabalho amadurecendo em stand by por dias. E a solução costuma aparecer de repente, muitas vezes no banho — quando a cabeça está solta, longe da tela e das obrigações.
Esses momentos “improdutivos” — almoços demorados, conversas fora de pauta, leituras aleatórias, caminhadas sem rumo — são os que renovam a criatividade e preservam a saúde mental. São eles que lembram a gente de que o trabalho precisa caber na vida, e não o contrário.
Colocar na agenda o que não é trabalho é também uma forma de desafiar a lógica de que descanso é perda de tempo. Descanso é preparo, é incubação de ideias, é um espaço silencioso onde coisas novas podem surgir. Quando a gente só se ocupa de tarefas imediatas, perde a chance de expandir a visão de longo prazo.
E, no fundo, isso é também sobre dar permissão a si mesmo. Permissão para não estar disponível o tempo todo. Para não ser produtivo a cada minuto. Para reconhecer que o valor do que fazemos não se mede pela agenda lotada, mas pela clareza e pela energia que conseguimos sustentar.
Na próxima semana, deixo uma provocação para você: tire um tempo da sua agenda para algo que não tenha nenhuma relação com o trabalho. Pode ser um encontro, uma leitura, um passeio sem destino. Experimente ver o que acontece quando você abre espaço para o que não é “útil”. Talvez ali esteja uma das formas mais bonitas de cuidar do seu trabalho — e de si mesmo.
Um abraço,
Marcia Breda


